segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Um Assassinato de Corvos - Parte 6/2

    Ou neste caso, Membros convidados. Loki os reconheceu imediatamente, e compreendeu a formalidade de Moyra. Embora para ser sincero, Jed Holyoak não era um tipo ruim, talvez um bajulador e ávido para agradar. Jed teve a honra dúbia de ser o Rei do Verão no ritual de ciclo do Círculo este ano – um reino temporário destinado a um duelo cerimonial e derrota sacrificial quando o Rei de Chifres era escolhido dentro de poucas semanas, então Loki não o culpava por aproveitar os holofotes enquanto ainda podia.
    Mas quanto a Bella Dravnzie – bem, ele esperava que Moyra não estivesse esperando por nenhum milagre esta noite.
    “Loki!” Bella sorriu e se levantou para cumprimentá-lo, como se fossem grandes amigos. “Faz tanto tempo desde que tivemos aquela conversa agradável.”
    Ele podia sentir ele atuando, o puxão do maldito sangue dela, mesmo tendo se passado seis anos. Ou talvez fosse apenas fosse apenas aquele truque de carisma dos Daeva – realmente, ele nunca poderia ter certeza.
    Moyra pôs sua mão no ombro dele. Não tão possessivo, mas sim como uma espécie de lembrete para Bella, que o havia recrutado, ou qual coven ele havia escolhido para se associar. Sua ação lhe deu a desculpa para desviar o olhar, vislumbrar as características de marfim por detrás do pequeno véu negro. Isso ajudou.
    Bella voltou para o que seria o tópico original da conversa. “Birch está em passando por surtos psicóticos novamente.”
    “Então, quais as novidades?” Loki deu de ombros. “O que é dessa vez? Alguém que ele comeu discordou dele?”
    “Aparentemente, mais do que um alguém, se os rumores forem verdadeiros,” Bella disse. “Parece que as vítimas passadas do Bispo não perdoam com tanta facilidade. E eles apareceram na catedral Santificada en masse na ultima semana para o avisarem disso. Durante o Culto, sem mais, nem menos. E aparentemente, de acordo com um número de fiéis, ficou bastante perturbado ao encontrar suas vítimas passadas sentadas lado a lado nos bancos da igreja, com os ferimentos escancarados, com os pregos ainda nas mãos – e com um cheiro de morte já avançado, também, até onde entendi.”
    Besteira. Loki se controlou para não rir alto. “Foi isso que Birch disse? Eu teria pagado para ver isso.”
    “Não me diga que o Santificado tem medo de alguns fantasmas,” disse Moyra, impressionada.
    “Não, não Birch, claro que não,” Bella rebateu, e se inclinou para frente, sua voz caindo até se tornar um sussurro conspiratório. “O que eu ouvi, é claro, foi dito para mim em estrita confidência – como você sabe, tenho minhas fontes dentro da Casa Palmer.”
    Persephone. Loki se perguntou se Persephone sabia que contar à Bella qualquer coisa da classe ‘estrita confidência’ somente garantiria que ela seria espalhada o mais rápido possível. Persephone certamente não era tola, e ela já havia sido queimada por Bella antes.
    “O que Birch está dizendo é que o que aconteceu ao seu pequeno circo Santificado foi bruxaria. Bruxaria do Círculo Pagão, para ser precisa, com a intenção de interromper e caçoar dos ritos sagrados do Santificado.
    Desta vez Loki riu, e até mesmo os lábios de Moyra se curvaram sob seu véu. “Que bonitinho,” disse Moyra, “mas eu duvido que Rowen saiba como fazer aquilo – ou se ao menos se daria ao trabalho.”
    “Você e eu talvez saibamos disso, é claro,” Bella concordou. “Mas se é verde ou não, pouco importa, se ele persuadir o Príncipe a banir nossos ritos na próxima semana em retaliação. O que é exatamente o que Birch está exigindo, é claro. E não haverá Elísio durante duas semanas – o que levará muito tempo até isso ser resolvido. Ele sabe que nossos ritos são relacionados ao calendário lunar.”
    “Isso se Maxwell ouvir à toda essa baboseira,” Loki salientou. “Ele não é idiota. Ele conhece Birch.”
    “Todos nós sabemos como é o Birch,” Jed adicionou. “Mas o Príncipe tem o favorecido ao invés da gente. E Bella está certa, é uma desculpa perfeita para eles. Culpe a bruxaria pagã – por que quem mais teria feito tal coisa, os Carthianos?”
    “Você tem que falar com ele, Loki,” Bella disse, com seriedade. “Você tem de explicar – “
    “Explicar o que?” Moyra perguntou, calmamente, e Loki ficou muito grato pela interrupção. “Que explicação nós devemos para Solomon Birch? Se ele não consegue lidar com seus fantasmas, ele não devia criar tantos deles. Que resposta devemos ao Príncipe, quando ele nem ao menos nos perguntou nada? Por que fazer o joguinho do Santificado aos nos defendermos antes mesmo de uma acusação ter sido feita?”
    “E quem esta lá para responder, se ele quiser?” Bella argumentou. “Quem estará lá para rebater as ridículas acusações de Birch? Quem fala por nós fora do Elísio? Rowen? Ela nem mesmo tem um celular! Vou fazer o que eu puder, é claro, mas há um limite em quanto posso pedir de Persephone – ela é muito nova para ser levada a sério, e em todo o caso, ela não é uma de nós.”
    “Bem, tecnicamente falando,” Jed a lembrou, bem a tempo, “Loki também não é um dos nossos por completo.”
    Ah, eu sabia. Lá vem. Loki se lembrou da promessa que havia feito para Moyra em não ser rude.
   “Ainda não?” Bella fingiu surpresa. “Você ainda não está no Coral após todo esse tempo, não é? Loki, querido, o que você está esperando? Eu poderia ter lhe iniciado há anos atrás!”
    Era ciúme, ou pelo menos foi o que Loki disse para si mesmo. O Coral era para iniciantes, novos na coalizão, ainda aprendendo suas filosofias, história, e rituais. Era verdade, é claro, que alguns nunca passavam deste ponto. Mas Moyra era conhecida por impor altos padrões para seus alunos. E Bella sabia perfeitamente o porquê dele ter escolhido a tutela de Moyra ao invés da dela, e era tudo culpa de Bella.
    “Loki passará pela iniciação quando estiver pronto, Bella,” Moyra disse pausadamente. “Não cabe a mim ou a qualquer outro escolher a hora dele.”
    “Mas você acredita que ele está pronto, não é?” Bella perguntou.
    “Não tenho mais nada para ensiná-lo no momento,” Moyra respondeu. “O que ainda falta, ele precisa aprender por si só – pois certas coisas não podem ser ensinadas, somente através de experiência.”
    “É verdade, a mais pura verdade,” Bella concordou, acenando sabiamente com a cabeça. “Experiência sempre será a melhor professora, porém, a mais cruel. É em nossas tribulações que encontramos a verdadeira iluminação.”
    “E aprender com nossos erros significa que não iremos repeti-los.” Loki não conseguiu mais ficar calado. “A experiência nos é útil desta forma, não acha?”
    “Isso é tudo que aprendeu com seus erros, Loki?” Bella rebateu. “Então talvez Moyra não esteja enganada – você ainda não está pronta para a iniciação, afinal. Uma pena, após todos estes anos.”
    Uma inundação de sentimentos que ele não estava acostumado a sentir o dominava por dentro: vergonha, culpa e arrependimento. Ela estava utilizando seus malditos truques Daeva nele de novo, tentando puxar sua corrente. Loki fez seu máximo para conter sua raiva, lutou para impedir que suas presas ficassem à mostra. Ele não se atreveria a responder. Demonstrar o quão ruim ela o havia deixado só iria piorar as coisas, e ainda assim, o insulto exigia algum tipo de resposta, se pelo menos ele conseguisse isso sem perder o que sobrou de sua compostura.
    Surpreendentemente, porém, foi Jed quem interveio. “Bella, querida, você não está ajudando, você sabe. E queríamos falar com ir falar com Justine esta noite – “
    “Ah, sim, é claro,” disse Bella, e os sentimentos – bem, a maioria deles, alguma raiva ainda restou – foi largada como uma camisa velha.
    Ele odiava quando ela fazia isso. Vadia.
    De alguma forma, Loki manteve sua civilidade pelos poucos minutos que levou para Jed e Bella se despedirem, e partirem do andar. Moyra saiu com eles, como que cumprindo seu papel de anfitriã.
    Ele nem teve de aguçar sua audição – na verdade, ele sabia q seria rude, e só poderia irritá-lo ainda mais. Mas a banda estava em um intervalo, e seria bom para ele praticar, ou pelo dizia isso para si mesmo, captar a conversa de alguém no meio das centenas de pessoas abaixo. Norris havia falado para ele praticar sempre que pudesse.
    - “Você sabe que as pessoas estão se perguntando – não que eu esteja sugerindo que ele tenha algo a esconder, claro que não – com quem está, realmente, sua lealdade. Todos sabemos como Norris coordena sua pequena operação...”
    “Vadia,” Loki murmurou, e se forçou a desfocar a audição novamente, se recusando a deixar Bella arruinar sua noite. Ele prometeu a si mesmo uma garota sexy vestida com couro preto, e havia várias assim lá embaixo para ele escolher.


Continua...

Um Assassinato de Corvos - Parte 6/1

    A Skullery não era a maior casa noturna na cidade – longe disso. Crobar tinha os maiores públicos, especialmente nos fins de semana, e Metro apostava em nomes famosos para rechear seus palcos. Mas tamanho não era tudo – estilo contava também, e Moyra tinha um sentido de estilo que um Daeva teria inveja. Ela também tinha uma noção exata de como agradar o público alvo, e mantê-los voltando – que beneficiava seu lucro final e aqueles Membros que ela contava como clientes e tinham permissão de se alimentarem em sua casa noturna similar a uma cripta gótica pseudo medieval. Loki se considerava sortudo por ser contado entre estes poucos felizardos.
    Hoje à noite, a Skullery estava abarrotada, com uma fila de gente de preto esperando do lado de fora da enganadora fachada mundana de tijolos lembrando um galpão. O segurança na porta o reconheceu e acenou para que ele passasse direto, causando o aborrecimento petulante dos mais próximos da porta. Loki sorriu um sorriso escancarado e os mandou um beijo, e então deslizou para dentro.
    Ele podia sentir a pulsante batida do contrabaixo e percussão através das solas de suas botas, reverberando no concreto e no aço dos degraus, nos blocos de pedra falsa na parede. Uma banda ao vivo – soava como Icarus Falling. Sim, era. Damien sempre atraía um bom público. Moyra estaria de bom humor, e se alimentar seria mais fácil.
    A pista de dança estava lotada com pessoas vestidas de preto, movendo-se ao ritmo do pulsar eletrônico da música. No palco, Damien executava um riff, dedos deslizando pelo braço da guitarra, evocando um uivo dolorido das cordas, que foi ecoado pelo sintetizador de Rina, reverberando e evaporado no silêncio vazio. Os integrantes da banda ficaram paralisados. As luzes se apagaram por um segundo, e então a batida voltou, as luzes voltaram, e guitarra e sintetizador apanharam o ritmo tribal de novo.
    Loki deu uma volta ao redor do perímetro erguido do clube, entre as mesas postas entre as massivas colunas do corredor e as alcovas com candelabros por entre as paredes externas. Algumas das alcovas tinham ossos e crânios nas paredes, algumas possuíam criptas com frente de vidro onde figuras esqueléticas vestidas em farrapos velhos podiam ser vistas descansando em seu interior. Gárgolas bisbilhoteiros e crânios de várias criaturas, humanas e inumanas foram esculpidos nos cantos e arcos da passagem. Os pilares iam até dois andares para cima e suportavam góticos arcos nas alturas.
    As escadas para a bancada superior estavam bloqueadas com uma corrente e uma pequena placa em caligrafia medieval: SOMENTE MEMBROS. O segurança abriu a corrente para ele e deu um passo para o lado. Loki fez um gesto de agradecimento e subiu as escadas.
    Loki caminhou pelo comprimento da bancada sobre a pista de dança até os fundos do clube. Moyra desceu as escadas na extremidade para encontrá-lo, a longa e marcante bainha de seu vestido vinha serpenteando por trás dela, quase invisível contra o preto do carpete.
    Damien uma vez tinha falado que metade do refúgio de Moyra era cheia de fantasias, e Loki podia acreditar nisso facilmente. Moyra afirmara que se cansara de vestir as mesmas coisas velhas – na verdade, Loki não se lembra de vê-la vestindo a mesma coisa duas vezes, ou pelo menos, não duas vezes no mesmo ano. Hoje a noite ela estava usando um vestido longo preto, frente única sem amarras, luvas de ópera de renda, e um casaco de penas vermelhas; seu cabelo era loiro e estava em um coque com um chapéu preto e um pequenino véu que balançava ante seus olhos. Muito chic, muito clássico – até mesmo seu batom era um vermelho de 1940.
    “Ah, boa noite,” ela disse, e graciosamente estendeu a mão para ele. “Era para você beijá-la,” ela adicionou quando ele falhou em pegar a dica.
    “Eu sabia disso”, Loki disse, e o fez, com seu melhor ar continental.
    “Assim está melhor,” ela disse, e levemente acariciou a bochecha dele com uma mão coberta de luva. “Temos convidados esta noite, a propósito. Tente não ser rude.”
    “É mesmo? Quem?”
    Moyra não respondeu. Ao invés disso, ela se virou para a porta aberta atrás dela em direção ao cômodo fracamente iluminado. Loki a seguiu. Aqui, escondido atrás dos arcos de pedra, se encontravam pesadas cortinas de veludo vermelho, e estrategicamente posicionadas para abafarem o som, era o cômodo mais exclusivo mais ostensivamente mobiliado, uma sala particular onde Moyra e outros Membros que ela favorecia poderiam saciar a si e aos seus convidados mortais.
    
Continua...

domingo, 30 de outubro de 2011

Um Assassinato de Corvos - Parte 5

Sob os pináculos góticos do Prédio do Tribunal, sob o asfalto da North Michigan Avenue, havia uma pitoresca galeria de corredores subterrâneos igualmente góticos, mas bem menos românticos, almoxarifados selados para equipamentos arcaicos de escritório e cadeiras quebradas, arquivos fotográficos esquecidos e arquivos de cartas mortas, salas de caldeira, cabines telefônicas, um impressionante labirinto de canos d’água e fios elétricos, e os claustrofóbicos escritórios, armários, e salas de descanso para a equipe de manutenção.
    O Cão do Príncipe se encontrava em um destes sombrios cômodos, acessados por uma escada de emergência próxima das estações de carga. Seus números variavam, dependendo das necessidades do Príncipe e dos caprichos de Norris. Loki tem estado na lista telefônica de Norris por quase uma década, e ele nunca teve certeza se sua longevidade nas graças do mestre espião era um indicador de sua competência ou de sua dispensabilidade.
    Havia três deles esta noite: o próprio; Baines, o imenso camarada louro de Iowa que chamávamos de “Terra”, por que era grande como uma montanha e imóvel uma vez que decidisse não sair do lugar; e Marek Kaminski, um companheiro Mekhet com enorme erudição e um ego similar. Loki deixaria suas presas de molho por uma semana para saber o que Norris tinha com Marek. Loki não conseguia imaginar o garoto de ouro da Ordo Dracul bancando o Cão para um Príncipe Invictus e se misturando com a gentalha como Loki e Terra, a não ser que fosse castigo por algo.
    “Pensei que você não pudesse morrer pelo vírus Muskegon,” disse Loki. “É o que eles vivem dizendo nos jornais, de qualquer forma. Dizem que não é nada sério, que a maioria das pessoas que pega ele nem mesmo sabem que estão doentes.”
    “Bem, você não pode,” Terra disse afavelmente. “Você já está morto.” O Daeva gargalhou de sua própria piada, dando tapas em sua enorme coxa, fazendo com que as correntes de ouro e prata ao redor de seu pescoço tintilassem.
    Loki riu também – não custava nada alegrar o cara grande, que não era exatamente a faca mais afiada na gaveta, mas que era muito bom em te cobrir em uma luta. E além disso, o frivolidade fazia com que os já finos lábios de Norris se comprimissem ainda mais em sinal de desaprovação. Norris não tinha muito senso de humor.
    O espião mestre, porém, tinha a habilidade de esfriar até mesmo a gargalha de Terra em um silêncio oprimido com pouco mais do que um olhar gélido. “Se já estiver terminado com a demonstração de infantilidade, devo me esforçar para explicar – para que até mesmo suas mentes possam compreender a grave natureza do problema que estamos encarando atualmente.”
    Norris pôs três envelopes pardos na mesa de conferência na frente deles. “Como verão pela informação fornecida, estes mortais não morreram do chamado vírus Muskegon – pelo menos não em sua mais prevalente forma comum.”
    Loki, sendo o mais próximo, empurrou um envelope através da mesa para Marek, e um para Terra, e abriu o seu. Seis fotografias, seis dossiês pessoais, incluindo relatórios médicos e legistas. “Um novo vírus?” Isso não estava nos jornais.
    “O que vocês tem em sua frente é o relatório não editado do laboratório,” disse Norris. “Naturalmente, os registros no hospital foram apropriadamente purgados de qualquer informação que fosse contraditória ao diagnóstico público oficial.”
    Loki avançou para os relatórios do laboratório hospitalar, que estavam em termos médicos, e passou levemente sobre as informações pessoais. Jovens, adolescentes ou vinte e poucos anos, mas saudáveis. Estudantes ou jovens trabalhadores. Quatro garotas, dois caras. Três de North Shore, o que não eram boas notícias. Um da Universidade de Chicago. Um de Cicero – hmm. E o último... “Este último cara, ele nem é mesmo de Chicago. Ele é de Gary.”
    “Uma observação astuta, Sr. Fischer,” Norris disse calmamente.
    “O que é em-encefa – alguma coisa? O que é isso que está escrito aqui?” A cabeça dourada de Terra era torturada pela terminologia médica. “Sob causa da morte.”
    “Encefalite,” Marek disse, “é uma inflamação no cérebro. Meningite é uma inflamação – um inchaço, se preferir – na membrana ao redor do cérebro e coluna espinhal. E antes mesmo de você tentar se esforçar mais, meningoencefalite é uma combinação das duas, e pode resultar em febre alta, convulsões, coma, paralisia – e, se você for uma pessoa sortuda, morte. Ou dano cerebral permanente. Felizmente, não são coisas que você tenha com que se preocupar.”
    “Sei, sei,” Loki murmurou. Maldito CDF, se mostrando com seus discursos de araque. Loki folheou através dos nomes e fotografias. John Nathan Duncan. Jillian Sheridan. Kimberly Jean McLaren. Porra, ela era linda. Jovem, também, só dezesseis. Muito mal... Algo estalou em sua mente, e ele analisou as informações pessoais de novo. Sim... sim, é possível... e sim. Um pouco novos, mas – possível, se freqüentavam os tipos certos de festas, ou pareciam velhos o suficiente para mentiram para os seguranças de casas noturnas. Ele via dezenas de mortais assim toda noite; assim como qualquer Membro que caçasse a cena dos clubes noturnos. Presa.
    “Eles morreram em sequência.” Marek claramente havia pegue os mesmo detalhes. “Três dias, talvez quatro no máximo, de diferença. E morreram três dias após os primeiro sintomas da doença. Jesus. Três dias?”
    “É um parasita,” Loki disse alto, em parte para suavizar o olhar de concentração quase dolorido no rosto de Terra, e em parte para fazer com que Marek calasse a boca. “Não é o mesmo vírus. Você acha que tem algum Membro por aí espalhando essa porcaria?”
    “A evidência parece indicar um vetor anormalmente seletivo,” Norris respondeu calmamente. “A maioria dos mortais afetados pelo tal vírus Muskegon eram idosos, ou já com a saúde debilitada. Estes eram jovens e saudáveis. Eles sucumbiram, conforme Sr. Kaminski apontou, extremamente rápido, e quatro deles foram hospitalizados na hora e passaram por tratamento. Suas mortes formam um padrão regular, quase previsível, que continuou pelo período das duas semanas que se passaram. Não podemos afirmar a que vulnerabilidade deles não seja uma simples coincidência, ou represente uma nova forma de um organismo viral evoluindo naturalmente, ou que seja o resultado de algum vetor sobrenatural. Mas não podemos excluir ainda. É aí, naturalmente, que vocês entram.”
    Naturalmente. Era isso que os Cães faziam, encontravam coisas – embora Loki não fosse tão ingênuo a ponto de assumir que os três eram os únicos que Norris ou Maxwell tinham posto no encalço. Alguém claramente copilou os dossiês, e Loki não estava nem mesmo apostando que receberam os arquivos completos, também. Norris era da escola do ‘o que você precisa saber’, e ele era aquele que decidia o que você precisava saber.
    “Pode ser um nômade, de passagem,” Marek divagou, observando os arquivos. “Embora se for, ele estava caçando furtivamente, e escolhendo a classe alta.”
    “Verdade,” Norris concordou. “Tenho certeza de que vocês podem ver o quão delicada é a situação. Uma coisa são as fatalidades do vírus serem relativamente incomuns e afetarem somente os velhos e enfermos. Mas o que parece ser mais uma séria epidemia pode fazer com que os mortais descubram o que mais as vítimas têm em comum – e pode ter conseqüências desastrosas para esta cidade.”
    “Se descobrirmos que é uma parasita fazendo isso tudo,” Terra disse, “o que você quer que a gente faça com o filho da puta?”
    “Se um Membro for o vetor, é claro, o Príncipe ira exigir evidências incontestáveis de sua culpa - o que devo apontar, Mr. Baines, não pode ser obtida através de cinzas. Seria muito lamentável e inconveniente se o Príncipe tiver que lidar com esta questão publicamente em um Elísio. Portanto, temos total confiança de que procederão com a mais alta discrição.”
    Por ‘mais alta descrição’, Norris quer realmente dizer ‘segredo total’. O que não tornaria o serviço deles mais fácil. “Tenho uma pergunta,” disse Loki. “O que, exatamente, é uma evidência incontestável? Este novo vírus aparece em exames de sangue ou o que? Digo, para um de nós, não eles.”
    “Obviamente, se soubéssemos a resposta para isto, Sr. Fischer, não precisaríamos de seus avançados poderes de observação,” Norris respondeu com calma. “Quanto a natureza da evidência – bem. Deixaremos isto à sua perspicácia. A prova definitiva, é claro, seria a cessação de relatórios como estes que possuem em mãos. A morte é muitas coisas, cavaleiros: ponto pacífico, invasiva, inevitável – algumas vezes até mesmo trágica. Mas quando ela também é misteriosa e cria um padrão que pode ser seguido, ela também pode levar a publicidade infeliz. Devo acreditar que fui claro o bastante?”

Continua...

sábado, 29 de outubro de 2011

Um Assassinato de Corvos - Parte 4

O Sangue é o único sacrifício verdadeiro, ou pelo menos era assim que dizia a Liturgia da Anciã. Felizmente, o sangue não precisava ser seu.
    O sacerdote mascarado terminou de fazer suas oferendas para os quatro Quartos, murmurando as invocações para os deuses que ele honrava. A fonte da oferenda de sangue, agora profundamente sob a influência da bebida adulterada que houvera consumido, se encontra deitado inerte no chão próximo. Por segurança – do sacerdote, não do mortal – ele também estava acorrentado à parede próxima. Sua real contribuição para o ritual viria mais tarde, pois somente ao final do ritual o sacerdote poderia ter sua própria fome satisfeita.
    Era quase manhã; o sacerdote podia sentir o insustentável peso do torpor começar a puxar seus membros, corroer sua consciência. Isto foi planejado, pois somente no estado onírico do torpor ele poderia ver o que estava oculto, redescobrir o que ele havia perdido. Sua jornada havia sido menos pessoal, menos vital para sua própria sobrevivência, havia melhores rituais para invocarem as visões de sonhos, mais competentes em obter as respostas que ele buscava do que este. Mas até mesmo expor sua necessidade por tal iluminação seria revelar demais, e assim, o sacerdote invocou seus deuses em solidão.
    Murmurando palavras em uma língua antiga, ele levantou a serpente negra de dentro do cesto, dedicando a serpente para seu propósito. Então ele quebrou sua espinha, logo abaixo da cabeça, e levantou o corpo da serpente até que ele ficasse firme. Ele arranjou o corpo no círculo mais perfeito que pôde, forçando a boca escancarada a engolir a ponta da calda. ”Grande serpente Ouroboros, início sem fim, eterna guardiã, vidente da verdade, aquela que retorna ao começo, em quem todas as coisas estão contidas e nada se oculta e se perder. Deixe-me ver claramente, deixe que a verdade brilhe como as estrelas no firmamento.”
    No centro do círculo da serpente, ele posicionou uma tigela de prata, e depositou água consagrada em seu interior, colhida diretamente do firmamento e abençoada pela luz da lua minguante. Da bolsa de runas, ele sacou três das peças de madeira gravadas sem olhar, e as depositou em uma bolsa de seda, a qual ele pendurou ao redor de seu pescoço. Elas guiariam seus sonhos e ajudariam a lembrar dos significados amanhã, quando acordasse.
    O último passo – e este sangue não poderia ser derramado por outro. Ele levantou sua curvada faca ritual em formato de garra, e cortou seu próprio pulso, do meio do antebraço até o começo da palma de sua mão, e ele deixou o sangue cair, dentro da água, dentro da tigela de prata. A Besta, já inquieta e irritada devido ao jejum de uma semana, urrava em fome e inquietação pela dor e nova perda de sangue, mas o sacerdote se manteve firme, e deixou o sangue fluir.
    O sangue mergulhou na água, formando estranhos redemoinhos coloridos contra a prata. As formas se colidiram, mudaram, re-moldaram, se moveram uma para dentro da outra, e o sacerdote as observava, deixando sua mente vagar livremente, deixando a si mesmo se afundar naqueles formatos voláteis conforme as sombras se infiltravam em sua mente.
    “Me deixe lembrar, deixe tudo voltar, me deixe ver – “
    Em algum lugar, como se fosse a uma grande distância, ele ouviu um rugido – um trovão como mil locomotivas, os gritos de mulheres e crianças e badalos de sinos, cavalos relinchando. Ele se lembrou de um céu manchado de vermelho, ondulando com uma sufocante e densa fumaça, cinzas e fuligem, e o vento – o mortal vento que conduzia as faíscas em turbilhão que sempre faziam o fogo prosseguir.
    “Seu tolo maldito, você acha que este é um insignificante jogo de status e política? Você não vê as chamas, fareja a morte ao nosso redor – você não ouve a cidade berrando? O que se levanta agora não pode ser derrubado facilmente – ele voltará, ele sempre volta. E ele nunca se esquecerá do sangue que lhe pertence.”
    Ele se lembrou do gosto do medo, seu nome fora forjado em um disco de osso, retirado de um caldeirão de sangue... o preço que foi exigido. O sangue é o único sacrifício verdadeiro. Mas o sangue de mortais era muito fraco para sustentá-lo – o sacrifício tinha de ser algo mais.
    Na distância ele ouviu uma voz masculina, palavras em um dialeto desconhecido, e o estalar das engrenagens de um relógio de ouro. “Quebrador de promessas, maldito seja; assassino e consumidor de almas, maldito seja novamente; falso sacerdote e enganador, maldito seja três vezes e para sempre, até que o sangue que você tenha roubado seja ressarcido – “
    O sangue do mago o queimou mesmo enquanto ele engolia, espalhando gelo e fogo através de suas veias. Mesmo quando ele largou o corpo, ele continuou a arder por dentro, como se tivesse ingerido alguma poção vil que fez com que seus membros enfraquecessem e o sangue que animava sua carne morta se tornasse ralo como água.
    E o tique-taque do relógio continuou, ignorando todas as suas tentativas de encontrá-lo e esmagá-lo em pedaços minúsculos, para quebrar a maldição antes que ela fizesse efeito. Ele olhou em cada bolso do refinado traje do cadáver, cada canto da estante de livros; o relógio não poderia ser encontrado. E ele continuava com o tique-taque, tique-taque, tique-taque, impiedoso e imperdoável...
    “Ele voltará, ele sempre volta. E ele nunca se esquecerá do sangue que lhe pertence...”

Continua...

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Um Assassinato de Corvos - Parte 3

Outro turno de meia noite no necrotério do hospital. O resto da equipe evitava trabalhar sozinho à meia noite, mas Gwyn – sua ID de funcionário do hospital dizia Dr. Jason Hyndes, Residente Interno, Patologista Forense – preferia assim. Para dizer a verdade, ele achava que seus pacientes eram melhores companhias do que alguns de seus companheiros internos – e seus pacientes já estavam mortos.
    A primeira chegada da noite, deitando tranqüila e rígida na maca, já o esperava na área de recepção do necrotério. Talvez esta seja a pior parte, ele pensou, e pôs suas mãos no lençol que cobria a cabeça da garota morta.
    - Dor como uma máscara comprimindo seu crânio, como agulhas por detrás dos olhos, apunhalando sua coluna de cima abaixo e a cada membro. Queimando, queimando, queimando... “perdão, Mamãe, por não ter agüentado mais, dói tanto, a escuridão é tão boa... quero que pare de doer, por favor, Deus, faça parar... estou tão cansada, só me deixe dormir...”
    Gwyn piscou várias vezes, forçou a visão dos últimos momentos coerentes do paciente a partir de seu olho da mente, e pegou o arquivo da frente da maca. Ele já sabia o que o arquivo diria: Causa da morte, meningoencefalite viral. Ela só tinha dezesseis anos.
    Ele empurrou a maca em direção a imensa unidade refrigeradora, pegou um saco de corpo da prateleira e começou a abri-lo.
    “Você não vai me colocar dentro dessa coisa, não é?” A voz era petulante e aguda, vinda do próprio ar – ou um lugar invisível para olhos Adormecidos.
    Gwyn tocou com uma mão o colar de ossos encantados que pendia sob seu jaleco médico, e traçou dois glifos ligeiros no corpo estirado em sua frente. Aquilo a fez aparecer como água cristalina – não deitada na maca, mas de pé, no outro lado.
    Mas esta não era Kimberly McLaren, a menina na maca – esta criança espectral era dez anos mais nova e vestia um vestido vermelho de veludo com camadas e laços e uma fileira de brilhantes botões dourados na frente, em um estilo que esteve fora de moda por quase um século.
    Que porra? Ele sabia o nome de todo paciente morto atualmente no freezer, e nenhum deles era uma criança. E, a julgar pelo vestido dela, este pequena garota morreu há muito, muito tempo atrás – mas ele não podia ver a natureza de sua morte em seu rosto, o que era estranho. “De onde diabos você veio?” Ele exigiu.
    “Tinha que te dar uma mensagem.” A criança fantasmagórica avançou e pôs algo sobre o lençol: uma pena preta de um corvo. “Por que você pode ver.”
    Havia algo subitamente diferente, algo errado sobre o corpo na maca. Ele não sabia como aquilo havia acontecido, mas ele sabia que algo havia mudado. Ele também sabia que tinha que olhar.
    Cauteloso, Gwyn levantou o lençol. Lá, ao invés de Kimberly, estava aquela mesma garotinha – uma horrenda, ensangüentada, e enegrecida figura fedendo cheirando a fumaça e carne queimada, seus membros reduzidos a cotocos carbonizados, o cinza queimado de seu crânio aparecendo onde pele e cabelo haviam sido queimados até os ossos. Ele só conseguia a reconhecer por que ainda havia restos visíveis do laço ao redor da linha do pescoço de seu vestido e da fileira de botões, não mais brilhantes, na frente.
    “Merda!” Gwyn gritou, e largou o lençol novamente. “Que porra está acontecendo aqui –“ ele começou, e então parou abruptamente, conforme o frio crescente na sala se alojava em seus próprios ossos.
    O necrotério não estava mais vazio. Meia dúzia ou mais de outra macas, cada uma ocupada por um corpo coberto por um lençol, estavam alinhadas em um lado do salão; junto com as outras, corpos cobertos estavam deitados em fileiras, de tamanhos de adultos e muito menores. Tantos corpos. Como podiam esperar que ele desse conta de tantos, trabalhando sozinho neste turno? Eles por acaso tinham espaço suficiente nas unidades para guardar todos? De onde todos vieram?
    “Como eles – “ ele começou a se perguntar, e então parou.
    “Vá e veja,” a garotinha disse.
    Tudo que ele tinha que fazer era tocar cada um dos cadáveres cobertos para saber como o pobre infeliz encontrou seu destino trágico; ele podia ver todos os momentos de suas mortes se revelando ante seus olhos. Crianças presas em um teatro em chamas, sufocando na fumaça, pisoteadas por adultos em pânico. Mulheres morrendo no parto. Os pobres e fracos sucumbindo a cólera, tifo ou difteria. Homens em um campo de carceragem há centenas de milhas de casa, vencidos pela fome e exposição ao duro inverno de Chicago. Aqueles condenados por assassinato e conspiração, reais ou imaginados, ainda com a forca ao redor de seus pescoços. Vítimas do rio, corpos inchados com gases retidos, suas roupas ainda pingando com água e limo do fundo do rio.
    Isto não é real, Gwyn disse para si desesperadamente. Isto era apenas uma visão, uma jornada espiritual de alguma forma – e ele acordaria, eventualmente. Ele esperava assim, pelo menos.
    “Muito tarde para isso,” a garotinha disse. “Muito tarde para parar de ver. O que você vai fazer?”
    Mas então ele percebeu que as ultimas vítimas estavam utilizando roupas modernas, e ele sentiu um suor frio se formar em sua testa, suas costas, e sob seus braços. Ele tocou na cabeça de uma mulher coberta, não se atrevendo a olhar por debaixo, e ouviu o ranger de poderosas vigas de aço, viu uma ponte se abrindo quando não deveria, e a sensação de queda, o impacto de outros carros acertando o dela, até mesmo sob a água escura, o abafado grito de crianças.
    Com um choque gelado, ele percebeu que esta tragédia ainda não havia acontecido. Mas iria, provavelmente muito em breve. Ele nunca foi capaz de impedir estas coisas de acontecer –
    Então ele acordou, por que alguém o estava sacudindo. “Dr. Hyndes! Dr. Hyndes, você está bem?”
    “Jesus – “ ele vociferou, e então caiu ajoelhado, pondo de lado o confuso funcionário, para que assim, pudesse ver o resto do necrotério.
    Vazio. Sem garotinhas, sem fileiras de cadáveres – só a maca com uma ocupante coberta por um lençol. Mas lá sobre o lençol, ele ainda podia ver a pena preta descansando exatamente onde o fantasma da pequena garota a havia colocado.


Continua...

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Um Assassinato de Corvos - Parte 2


    Havia um novo odor no vento esta noite. O urso se levantou sobre suas patas traseiras e inalou, narinas se dilatando para capturar cada nuance. Sangue – sangue velho e sangue novo. Fumaça, a mácula ácida de madeira queimando, alcatrão e carne. O cheiro do medo, de carne putrefata e fedorenta, entranhas apodrecendo sobrepujando água fresca, de doença, de morte, de latrinas abertas, e muitas pessoas pobres vivendo muito próximas. O odor era forte, latente, ardente – mas elusivo. Quando o urso virou sua cabeça para melhor determinar a direção da qual vinha o odor, o cheiro de morte se dissipou como a própria névoa, e tudo que restou foram os bosques, o frescor das folhas ensopadas de chuva, as interligadas trilhas das raposas, texugos, coelhos e cervos, o quente apodrecer de folhas caídas e madeira morta. Não – espere. Lá. Há um cheiro de morte, embora não seja o mesmo. O urso ficou sobre quatro patas e rumou naquela direção, até que seu inquisidor nariz encontrasse um pequenino cadáver coberto de penas pretas, esparramado de modo bizarro contra o musgo da floresta.
    O urso estava faminto, mas não se alimentou da ave. Ele deixou o corvo para os vermes.
    Um som alcançou os ouvidos do urso – o agitar de muitas asas, os agourentos chamados dos familiares do corvo morto, bem acima. Mas havia algo de estranho naquilo que o urso ouvia.
    Perturbado pela estranheza, mas incapaz de defini-la, o urso foi partiu para um espaço aberto, um pedaço de savana entre as árvores, e ficou novamente sobre suas patas traseiras. Sua visão, porém, não era igual aos seus outros sentidos. Ele emitiu um pequeno urro de frustração por esta limitação, e então sua forma ondulou e encolheu, pêlos dando lugar a jeans e couro, um rosto marrom encharcado e longos cabelos pretos, adornados com osso e penas. Como o urso, seus olhos pretos brilhavam com inteligência afiada; como o urso, ela não respirava, a não ser quando necessário para ler os odores na brisa.
    Os olhos mais finos de Rowen capturaram o último desvio do bando passageiro, asas negras manchando as estrelas na abóbada azul-marinho. Mas corvos não eram voadores tipicamente noturnos. E agora, muitos estavam mortos, como aqueles que ela encontrou nos arbustos. Uma nova doença surgiu no verão, e os poleiros locais que antes possuíam centenas, eram agora evitados pelos sobreviventes, como se fossem locais malditos.
    Rowen voltou silenciosamente por sob as árvores e se agachou ao lado do pequeno e rígido corpo do corvo caído. Ela furou um dedo com uma faca, e deixou uma gota de seu próprio sangue escuro cair no bico negro, murmurando palavras suaves para acalmar o espírito da criatura. Então ela arrancou três penas das asas esticadas, as botou em um pequeno saco plástico, e guardou-as em uma algibeira em sua cintura.
   Só havia uma razão que ela pudesse pensar para que os corvos estivessem voando de noite. Mas Rowen não dava ouvidos para boatos, nem se desesperava facilmente. Ela esperaria até ter certeza – pois nada acontecia sem motivo. Se a Mulher Corvo havia realmente retornado, Rowen saberia a verdade muito em breve.

Continua...

Um Assassinato de Corvos - Parte 1


    Mais um corvo morto.
    Loki pegou o corpo coberto de plumas pretas por uma das rígidas patas e o empurrou da beirada da bancada, observando-o cair na escuridão do beco três andares abaixo. Deixa que a cidade limpe essa merda. Ele tinha outras coisas para se preocupar. Ele só queria que as malditas coisas escolhessem a varanda de outra pessoa para baterem as botas. Este havia sido o terceiro nesta semana. Malditos pássaros.
    Ele saltou para o corrimão de madeira e se agachou, balançando-se em seus calcanhares, uma mão levemente enrolada ao redor da coluna de suporte da varanda acima. Era uma queda de 11 metros. Perigoso, se ele fosse mortal – mas ele não era. Loki era um vampiro, um predador morto-vivo da noite – e ele saboreava o pequeno arremedo de perigo que sentiu quando estava em seu precário poleiro. Era quase como estar vivo novamente.
    Agora, o teste pra valer. Olhos fechados, ele se apegou a todos seus outros sentidos, audição, olfato e toque. Esses sentidos eram particularmente aguçados, cortesia da herança de seu clã, Mekhet, e ao bastardo miserável que fez Loki ser o que era. A prática leva à perfeição, eles sempre dizem...
    O dia está quente. Conforme ele deixava sua percepção vagar, ele podia sentir os vestígios de calor radiando dos tijolos e concreto da rua, da estrutura de madeira da varanda e do prédio atrás dele. Ele poderia captar o zumbido do tráfico de Lake Shore Drive, e bisbilhotar conversas do beco abaixo e de janelas abertas do próximo prédio. A brisa do Lago Michigan trazia um odor de grama fresca recém cortada, descargas de carro, lixo, e fracos, quase nauseantes ecos de odores de cozinhas de dezenas de lares diferentes, vindo rua acima e rua abaixo. Só mais uma noite de verão na Costa Norte.
    Então ele sentiu cheiro de sangue.
    Imediatamente, todo seu corpo ficou tenso, cada nervo ficou alerta, sua mão subitamente agarrou a estrutura de suporte para manter seu empoleirar precário. Sangue. Já fazem duas noites desde que ele alimentara pela ultima vez. Agora a fome era subitamente um doloroso abismo em algum lugar nas profundezas de sua barriga, um vazio que exigia ser preenchido.
    Seus olhos se abriram rapidamente, somente para se fecharem novamente em dor devido a inesperada iluminação do posto no lado oposto. Maldição! Reflexivamente, ele abandonou seus aprimorados sentidos Mekhet até que pudesse suportar a luz.
    Sangue – onde? De onde ele estava vindo? O beco? Um dos apartamentos adjacentes? Era tão forte – tão fresco, tão atraente. Convidativo. Piscando furiosamente, limpando lágrimas de sangue de seus olhos com as costas de sua mão livre, ele olhou rapidamente rua acima e abaixo. Nada. Mas o odor de sangue ainda estava lá, o provocando de perto. Logo abaixo.
    Ele julgou a distância até o asfalto do beco com seus olhos. Nada podia ser visto no beco, nem uma janela próxima. Ninguém olhando – e ninguém veria se ele não quisesse. E as escadas levariam tempo demais.
    Ele juntou a escuridão ao seu redor, e saltou.
    Sua aterrissagem foi absolutamente silenciosa, mas menos do que graciosa; a força do impacto enviou dor lancinante para seus tornozelos e canelas. Loki caiu de pé, mas seus primeiros poucos passos foram em direção ao beco foram decididamente mancos e desnivelados. Merda. Isso doeu.
    De alguma forma, ele cambaleou para a escuridão do beco, e se jogou contra a parede de tijolos, enviando sangue para seus tornozelos até que a dor desaparecesse. “Lição de hoje,” ele resmungou sob seu arfar. “Não espere sair correndo após saltar de uma queda de três andares sem uma porra de um pára-quedas.” Então, mais uma vez, ele inalou, buscando pelo odor de sangue. Onde –
    Nada!
   Mas que diabos? Cuidadosamente, ele expandiu seus sentidos novamente, atentamente protegendo seus olhos das luzes dos postes. Há apenas alguns momentos, o cheiro era tão forte. Tão fresco.
    Mas agora, nada. Somente o vacilante e patético cadáver de um corvo, esparramado contra o asfalto rústico. Somente o odor de lixo em decomposição e o molho de espaguete de algum vizinho. Nada além disso.
    Agora, isso era estranho demais. Loki andou mais uns minutos pelo beco, só para ter certeza, mas não encontrou nenhum traço de nada até mesmo remotamente plausível como a fonte do odor de sangue. Nada – o que não fez sentido algum.
    Então ele ouviu seu telefone tocar lá em cima. Claro, até ele ter corrido os três andares de volta, Norris já teria desligado, deixando somente uma sóbria mensagem de texto: 10 pm ESTA NOITE. LUGAR DE SEMPRE. SUA PONTUALIDADE É APRECIADA.
    Tinha tanta coisa para fazer nesta noite de lazer pecaminoso, música e dança com as meninas de sangue quente em corseletes de couro preto e um laço Vitoriano. Por que Norris sempre arrumava essas coisas em uma Sexta Feira a noite?
    Loki procurou no armário do tamanho de um quarto, que servia como seu guarda-roupa e sua câmara para dormir, por uma camiseta limpa – pontualidade não era a única coisa que seu mestre insistia – e uma decente calça jeans escura. O longo e negro casaco de couro, com suas tiras e fivelas veio antes.
    Ele correu seus dedos por seus cabelos, fazendo arrepiados tufos negros – o mestre espião do Príncipe podia preferir camisas brancas e gravatas borboletas, mas Loki preferia encarar a noite com um estilo um pouco mais contemporâneo. E, com alguma sorte, a reunião não levaria a noite toda, e ele ainda poderia ir até a Skullery antes dos itens mais doces do Buffet terem ido para casa dormir.
    Ele deixou o mistério do cheiro de sangue no beco para ser investigado mais tarde. Agora era hora de trabalhar

 Continua...