Havia um novo odor no vento esta noite. O urso se levantou sobre suas patas traseiras e inalou, narinas se dilatando para capturar cada nuance. Sangue – sangue velho e sangue novo. Fumaça, a mácula ácida de madeira queimando, alcatrão e carne. O cheiro do medo, de carne putrefata e fedorenta, entranhas apodrecendo sobrepujando água fresca, de doença, de morte, de latrinas abertas, e muitas pessoas pobres vivendo muito próximas. O odor era forte, latente, ardente – mas elusivo. Quando o urso virou sua cabeça para melhor determinar a direção da qual vinha o odor, o cheiro de morte se dissipou como a própria névoa, e tudo que restou foram os bosques, o frescor das folhas ensopadas de chuva, as interligadas trilhas das raposas, texugos, coelhos e cervos, o quente apodrecer de folhas caídas e madeira morta. Não – espere. Lá. Há um cheiro de morte, embora não seja o mesmo. O urso ficou sobre quatro patas e rumou naquela direção, até que seu inquisidor nariz encontrasse um pequenino cadáver coberto de penas pretas, esparramado de modo bizarro contra o musgo da floresta.
O urso estava faminto, mas não se alimentou da ave. Ele deixou o corvo para os vermes.
Um som alcançou os ouvidos do urso – o agitar de muitas asas, os agourentos chamados dos familiares do corvo morto, bem acima. Mas havia algo de estranho naquilo que o urso ouvia.
Perturbado pela estranheza, mas incapaz de defini-la, o urso foi partiu para um espaço aberto, um pedaço de savana entre as árvores, e ficou novamente sobre suas patas traseiras. Sua visão, porém, não era igual aos seus outros sentidos. Ele emitiu um pequeno urro de frustração por esta limitação, e então sua forma ondulou e encolheu, pêlos dando lugar a jeans e couro, um rosto marrom encharcado e longos cabelos pretos, adornados com osso e penas. Como o urso, seus olhos pretos brilhavam com inteligência afiada; como o urso, ela não respirava, a não ser quando necessário para ler os odores na brisa.
Os olhos mais finos de Rowen capturaram o último desvio do bando passageiro, asas negras manchando as estrelas na abóbada azul-marinho. Mas corvos não eram voadores tipicamente noturnos. E agora, muitos estavam mortos, como aqueles que ela encontrou nos arbustos. Uma nova doença surgiu no verão, e os poleiros locais que antes possuíam centenas, eram agora evitados pelos sobreviventes, como se fossem locais malditos.
Rowen voltou silenciosamente por sob as árvores e se agachou ao lado do pequeno e rígido corpo do corvo caído. Ela furou um dedo com uma faca, e deixou uma gota de seu próprio sangue escuro cair no bico negro, murmurando palavras suaves para acalmar o espírito da criatura. Então ela arrancou três penas das asas esticadas, as botou em um pequeno saco plástico, e guardou-as em uma algibeira em sua cintura.
Só havia uma razão que ela pudesse pensar para que os corvos estivessem voando de noite. Mas Rowen não dava ouvidos para boatos, nem se desesperava facilmente. Ela esperaria até ter certeza – pois nada acontecia sem motivo. Se a Mulher Corvo havia realmente retornado, Rowen saberia a verdade muito em breve.
Continua...

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