quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Um Assassinato de Corvos - Parte 1


    Mais um corvo morto.
    Loki pegou o corpo coberto de plumas pretas por uma das rígidas patas e o empurrou da beirada da bancada, observando-o cair na escuridão do beco três andares abaixo. Deixa que a cidade limpe essa merda. Ele tinha outras coisas para se preocupar. Ele só queria que as malditas coisas escolhessem a varanda de outra pessoa para baterem as botas. Este havia sido o terceiro nesta semana. Malditos pássaros.
    Ele saltou para o corrimão de madeira e se agachou, balançando-se em seus calcanhares, uma mão levemente enrolada ao redor da coluna de suporte da varanda acima. Era uma queda de 11 metros. Perigoso, se ele fosse mortal – mas ele não era. Loki era um vampiro, um predador morto-vivo da noite – e ele saboreava o pequeno arremedo de perigo que sentiu quando estava em seu precário poleiro. Era quase como estar vivo novamente.
    Agora, o teste pra valer. Olhos fechados, ele se apegou a todos seus outros sentidos, audição, olfato e toque. Esses sentidos eram particularmente aguçados, cortesia da herança de seu clã, Mekhet, e ao bastardo miserável que fez Loki ser o que era. A prática leva à perfeição, eles sempre dizem...
    O dia está quente. Conforme ele deixava sua percepção vagar, ele podia sentir os vestígios de calor radiando dos tijolos e concreto da rua, da estrutura de madeira da varanda e do prédio atrás dele. Ele poderia captar o zumbido do tráfico de Lake Shore Drive, e bisbilhotar conversas do beco abaixo e de janelas abertas do próximo prédio. A brisa do Lago Michigan trazia um odor de grama fresca recém cortada, descargas de carro, lixo, e fracos, quase nauseantes ecos de odores de cozinhas de dezenas de lares diferentes, vindo rua acima e rua abaixo. Só mais uma noite de verão na Costa Norte.
    Então ele sentiu cheiro de sangue.
    Imediatamente, todo seu corpo ficou tenso, cada nervo ficou alerta, sua mão subitamente agarrou a estrutura de suporte para manter seu empoleirar precário. Sangue. Já fazem duas noites desde que ele alimentara pela ultima vez. Agora a fome era subitamente um doloroso abismo em algum lugar nas profundezas de sua barriga, um vazio que exigia ser preenchido.
    Seus olhos se abriram rapidamente, somente para se fecharem novamente em dor devido a inesperada iluminação do posto no lado oposto. Maldição! Reflexivamente, ele abandonou seus aprimorados sentidos Mekhet até que pudesse suportar a luz.
    Sangue – onde? De onde ele estava vindo? O beco? Um dos apartamentos adjacentes? Era tão forte – tão fresco, tão atraente. Convidativo. Piscando furiosamente, limpando lágrimas de sangue de seus olhos com as costas de sua mão livre, ele olhou rapidamente rua acima e abaixo. Nada. Mas o odor de sangue ainda estava lá, o provocando de perto. Logo abaixo.
    Ele julgou a distância até o asfalto do beco com seus olhos. Nada podia ser visto no beco, nem uma janela próxima. Ninguém olhando – e ninguém veria se ele não quisesse. E as escadas levariam tempo demais.
    Ele juntou a escuridão ao seu redor, e saltou.
    Sua aterrissagem foi absolutamente silenciosa, mas menos do que graciosa; a força do impacto enviou dor lancinante para seus tornozelos e canelas. Loki caiu de pé, mas seus primeiros poucos passos foram em direção ao beco foram decididamente mancos e desnivelados. Merda. Isso doeu.
    De alguma forma, ele cambaleou para a escuridão do beco, e se jogou contra a parede de tijolos, enviando sangue para seus tornozelos até que a dor desaparecesse. “Lição de hoje,” ele resmungou sob seu arfar. “Não espere sair correndo após saltar de uma queda de três andares sem uma porra de um pára-quedas.” Então, mais uma vez, ele inalou, buscando pelo odor de sangue. Onde –
    Nada!
   Mas que diabos? Cuidadosamente, ele expandiu seus sentidos novamente, atentamente protegendo seus olhos das luzes dos postes. Há apenas alguns momentos, o cheiro era tão forte. Tão fresco.
    Mas agora, nada. Somente o vacilante e patético cadáver de um corvo, esparramado contra o asfalto rústico. Somente o odor de lixo em decomposição e o molho de espaguete de algum vizinho. Nada além disso.
    Agora, isso era estranho demais. Loki andou mais uns minutos pelo beco, só para ter certeza, mas não encontrou nenhum traço de nada até mesmo remotamente plausível como a fonte do odor de sangue. Nada – o que não fez sentido algum.
    Então ele ouviu seu telefone tocar lá em cima. Claro, até ele ter corrido os três andares de volta, Norris já teria desligado, deixando somente uma sóbria mensagem de texto: 10 pm ESTA NOITE. LUGAR DE SEMPRE. SUA PONTUALIDADE É APRECIADA.
    Tinha tanta coisa para fazer nesta noite de lazer pecaminoso, música e dança com as meninas de sangue quente em corseletes de couro preto e um laço Vitoriano. Por que Norris sempre arrumava essas coisas em uma Sexta Feira a noite?
    Loki procurou no armário do tamanho de um quarto, que servia como seu guarda-roupa e sua câmara para dormir, por uma camiseta limpa – pontualidade não era a única coisa que seu mestre insistia – e uma decente calça jeans escura. O longo e negro casaco de couro, com suas tiras e fivelas veio antes.
    Ele correu seus dedos por seus cabelos, fazendo arrepiados tufos negros – o mestre espião do Príncipe podia preferir camisas brancas e gravatas borboletas, mas Loki preferia encarar a noite com um estilo um pouco mais contemporâneo. E, com alguma sorte, a reunião não levaria a noite toda, e ele ainda poderia ir até a Skullery antes dos itens mais doces do Buffet terem ido para casa dormir.
    Ele deixou o mistério do cheiro de sangue no beco para ser investigado mais tarde. Agora era hora de trabalhar

 Continua...

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