sábado, 29 de outubro de 2011

Um Assassinato de Corvos - Parte 4

O Sangue é o único sacrifício verdadeiro, ou pelo menos era assim que dizia a Liturgia da Anciã. Felizmente, o sangue não precisava ser seu.
    O sacerdote mascarado terminou de fazer suas oferendas para os quatro Quartos, murmurando as invocações para os deuses que ele honrava. A fonte da oferenda de sangue, agora profundamente sob a influência da bebida adulterada que houvera consumido, se encontra deitado inerte no chão próximo. Por segurança – do sacerdote, não do mortal – ele também estava acorrentado à parede próxima. Sua real contribuição para o ritual viria mais tarde, pois somente ao final do ritual o sacerdote poderia ter sua própria fome satisfeita.
    Era quase manhã; o sacerdote podia sentir o insustentável peso do torpor começar a puxar seus membros, corroer sua consciência. Isto foi planejado, pois somente no estado onírico do torpor ele poderia ver o que estava oculto, redescobrir o que ele havia perdido. Sua jornada havia sido menos pessoal, menos vital para sua própria sobrevivência, havia melhores rituais para invocarem as visões de sonhos, mais competentes em obter as respostas que ele buscava do que este. Mas até mesmo expor sua necessidade por tal iluminação seria revelar demais, e assim, o sacerdote invocou seus deuses em solidão.
    Murmurando palavras em uma língua antiga, ele levantou a serpente negra de dentro do cesto, dedicando a serpente para seu propósito. Então ele quebrou sua espinha, logo abaixo da cabeça, e levantou o corpo da serpente até que ele ficasse firme. Ele arranjou o corpo no círculo mais perfeito que pôde, forçando a boca escancarada a engolir a ponta da calda. ”Grande serpente Ouroboros, início sem fim, eterna guardiã, vidente da verdade, aquela que retorna ao começo, em quem todas as coisas estão contidas e nada se oculta e se perder. Deixe-me ver claramente, deixe que a verdade brilhe como as estrelas no firmamento.”
    No centro do círculo da serpente, ele posicionou uma tigela de prata, e depositou água consagrada em seu interior, colhida diretamente do firmamento e abençoada pela luz da lua minguante. Da bolsa de runas, ele sacou três das peças de madeira gravadas sem olhar, e as depositou em uma bolsa de seda, a qual ele pendurou ao redor de seu pescoço. Elas guiariam seus sonhos e ajudariam a lembrar dos significados amanhã, quando acordasse.
    O último passo – e este sangue não poderia ser derramado por outro. Ele levantou sua curvada faca ritual em formato de garra, e cortou seu próprio pulso, do meio do antebraço até o começo da palma de sua mão, e ele deixou o sangue cair, dentro da água, dentro da tigela de prata. A Besta, já inquieta e irritada devido ao jejum de uma semana, urrava em fome e inquietação pela dor e nova perda de sangue, mas o sacerdote se manteve firme, e deixou o sangue fluir.
    O sangue mergulhou na água, formando estranhos redemoinhos coloridos contra a prata. As formas se colidiram, mudaram, re-moldaram, se moveram uma para dentro da outra, e o sacerdote as observava, deixando sua mente vagar livremente, deixando a si mesmo se afundar naqueles formatos voláteis conforme as sombras se infiltravam em sua mente.
    “Me deixe lembrar, deixe tudo voltar, me deixe ver – “
    Em algum lugar, como se fosse a uma grande distância, ele ouviu um rugido – um trovão como mil locomotivas, os gritos de mulheres e crianças e badalos de sinos, cavalos relinchando. Ele se lembrou de um céu manchado de vermelho, ondulando com uma sufocante e densa fumaça, cinzas e fuligem, e o vento – o mortal vento que conduzia as faíscas em turbilhão que sempre faziam o fogo prosseguir.
    “Seu tolo maldito, você acha que este é um insignificante jogo de status e política? Você não vê as chamas, fareja a morte ao nosso redor – você não ouve a cidade berrando? O que se levanta agora não pode ser derrubado facilmente – ele voltará, ele sempre volta. E ele nunca se esquecerá do sangue que lhe pertence.”
    Ele se lembrou do gosto do medo, seu nome fora forjado em um disco de osso, retirado de um caldeirão de sangue... o preço que foi exigido. O sangue é o único sacrifício verdadeiro. Mas o sangue de mortais era muito fraco para sustentá-lo – o sacrifício tinha de ser algo mais.
    Na distância ele ouviu uma voz masculina, palavras em um dialeto desconhecido, e o estalar das engrenagens de um relógio de ouro. “Quebrador de promessas, maldito seja; assassino e consumidor de almas, maldito seja novamente; falso sacerdote e enganador, maldito seja três vezes e para sempre, até que o sangue que você tenha roubado seja ressarcido – “
    O sangue do mago o queimou mesmo enquanto ele engolia, espalhando gelo e fogo através de suas veias. Mesmo quando ele largou o corpo, ele continuou a arder por dentro, como se tivesse ingerido alguma poção vil que fez com que seus membros enfraquecessem e o sangue que animava sua carne morta se tornasse ralo como água.
    E o tique-taque do relógio continuou, ignorando todas as suas tentativas de encontrá-lo e esmagá-lo em pedaços minúsculos, para quebrar a maldição antes que ela fizesse efeito. Ele olhou em cada bolso do refinado traje do cadáver, cada canto da estante de livros; o relógio não poderia ser encontrado. E ele continuava com o tique-taque, tique-taque, tique-taque, impiedoso e imperdoável...
    “Ele voltará, ele sempre volta. E ele nunca se esquecerá do sangue que lhe pertence...”

Continua...

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