Outro turno de meia noite no necrotério do hospital. O resto da equipe evitava trabalhar sozinho à meia noite, mas Gwyn – sua ID de funcionário do hospital dizia Dr. Jason Hyndes, Residente Interno, Patologista Forense – preferia assim. Para dizer a verdade, ele achava que seus pacientes eram melhores companhias do que alguns de seus companheiros internos – e seus pacientes já estavam mortos.
A primeira chegada da noite, deitando tranqüila e rígida na maca, já o esperava na área de recepção do necrotério. Talvez esta seja a pior parte, ele pensou, e pôs suas mãos no lençol que cobria a cabeça da garota morta.
- Dor como uma máscara comprimindo seu crânio, como agulhas por detrás dos olhos, apunhalando sua coluna de cima abaixo e a cada membro. Queimando, queimando, queimando... “perdão, Mamãe, por não ter agüentado mais, dói tanto, a escuridão é tão boa... quero que pare de doer, por favor, Deus, faça parar... estou tão cansada, só me deixe dormir...”
Gwyn piscou várias vezes, forçou a visão dos últimos momentos coerentes do paciente a partir de seu olho da mente, e pegou o arquivo da frente da maca. Ele já sabia o que o arquivo diria: Causa da morte, meningoencefalite viral. Ela só tinha dezesseis anos.
Ele empurrou a maca em direção a imensa unidade refrigeradora, pegou um saco de corpo da prateleira e começou a abri-lo.
“Você não vai me colocar dentro dessa coisa, não é?” A voz era petulante e aguda, vinda do próprio ar – ou um lugar invisível para olhos Adormecidos.
Gwyn tocou com uma mão o colar de ossos encantados que pendia sob seu jaleco médico, e traçou dois glifos ligeiros no corpo estirado em sua frente. Aquilo a fez aparecer como água cristalina – não deitada na maca, mas de pé, no outro lado.
Mas esta não era Kimberly McLaren, a menina na maca – esta criança espectral era dez anos mais nova e vestia um vestido vermelho de veludo com camadas e laços e uma fileira de brilhantes botões dourados na frente, em um estilo que esteve fora de moda por quase um século.
Que porra? Ele sabia o nome de todo paciente morto atualmente no freezer, e nenhum deles era uma criança. E, a julgar pelo vestido dela, este pequena garota morreu há muito, muito tempo atrás – mas ele não podia ver a natureza de sua morte em seu rosto, o que era estranho. “De onde diabos você veio?” Ele exigiu.
“Tinha que te dar uma mensagem.” A criança fantasmagórica avançou e pôs algo sobre o lençol: uma pena preta de um corvo. “Por que você pode ver.”
Havia algo subitamente diferente, algo errado sobre o corpo na maca. Ele não sabia como aquilo havia acontecido, mas ele sabia que algo havia mudado. Ele também sabia que tinha que olhar.
Cauteloso, Gwyn levantou o lençol. Lá, ao invés de Kimberly, estava aquela mesma garotinha – uma horrenda, ensangüentada, e enegrecida figura fedendo cheirando a fumaça e carne queimada, seus membros reduzidos a cotocos carbonizados, o cinza queimado de seu crânio aparecendo onde pele e cabelo haviam sido queimados até os ossos. Ele só conseguia a reconhecer por que ainda havia restos visíveis do laço ao redor da linha do pescoço de seu vestido e da fileira de botões, não mais brilhantes, na frente.
“Merda!” Gwyn gritou, e largou o lençol novamente. “Que porra está acontecendo aqui –“ ele começou, e então parou abruptamente, conforme o frio crescente na sala se alojava em seus próprios ossos.
O necrotério não estava mais vazio. Meia dúzia ou mais de outra macas, cada uma ocupada por um corpo coberto por um lençol, estavam alinhadas em um lado do salão; junto com as outras, corpos cobertos estavam deitados em fileiras, de tamanhos de adultos e muito menores. Tantos corpos. Como podiam esperar que ele desse conta de tantos, trabalhando sozinho neste turno? Eles por acaso tinham espaço suficiente nas unidades para guardar todos? De onde todos vieram?
“Como eles – “ ele começou a se perguntar, e então parou.
“Vá e veja,” a garotinha disse.
Tudo que ele tinha que fazer era tocar cada um dos cadáveres cobertos para saber como o pobre infeliz encontrou seu destino trágico; ele podia ver todos os momentos de suas mortes se revelando ante seus olhos. Crianças presas em um teatro em chamas, sufocando na fumaça, pisoteadas por adultos em pânico. Mulheres morrendo no parto. Os pobres e fracos sucumbindo a cólera, tifo ou difteria. Homens em um campo de carceragem há centenas de milhas de casa, vencidos pela fome e exposição ao duro inverno de Chicago. Aqueles condenados por assassinato e conspiração, reais ou imaginados, ainda com a forca ao redor de seus pescoços. Vítimas do rio, corpos inchados com gases retidos, suas roupas ainda pingando com água e limo do fundo do rio.
Isto não é real, Gwyn disse para si desesperadamente. Isto era apenas uma visão, uma jornada espiritual de alguma forma – e ele acordaria, eventualmente. Ele esperava assim, pelo menos.
“Muito tarde para isso,” a garotinha disse. “Muito tarde para parar de ver. O que você vai fazer?”
Mas então ele percebeu que as ultimas vítimas estavam utilizando roupas modernas, e ele sentiu um suor frio se formar em sua testa, suas costas, e sob seus braços. Ele tocou na cabeça de uma mulher coberta, não se atrevendo a olhar por debaixo, e ouviu o ranger de poderosas vigas de aço, viu uma ponte se abrindo quando não deveria, e a sensação de queda, o impacto de outros carros acertando o dela, até mesmo sob a água escura, o abafado grito de crianças.
Com um choque gelado, ele percebeu que esta tragédia ainda não havia acontecido. Mas iria, provavelmente muito em breve. Ele nunca foi capaz de impedir estas coisas de acontecer –
Então ele acordou, por que alguém o estava sacudindo. “Dr. Hyndes! Dr. Hyndes, você está bem?”
“Jesus – “ ele vociferou, e então caiu ajoelhado, pondo de lado o confuso funcionário, para que assim, pudesse ver o resto do necrotério.
Vazio. Sem garotinhas, sem fileiras de cadáveres – só a maca com uma ocupante coberta por um lençol. Mas lá sobre o lençol, ele ainda podia ver a pena preta descansando exatamente onde o fantasma da pequena garota a havia colocado.
Continua...
Continua...

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