Sob os pináculos góticos do Prédio do Tribunal, sob o asfalto da North Michigan Avenue, havia uma pitoresca galeria de corredores subterrâneos igualmente góticos, mas bem menos românticos, almoxarifados selados para equipamentos arcaicos de escritório e cadeiras quebradas, arquivos fotográficos esquecidos e arquivos de cartas mortas, salas de caldeira, cabines telefônicas, um impressionante labirinto de canos d’água e fios elétricos, e os claustrofóbicos escritórios, armários, e salas de descanso para a equipe de manutenção.
O Cão do Príncipe se encontrava em um destes sombrios cômodos, acessados por uma escada de emergência próxima das estações de carga. Seus números variavam, dependendo das necessidades do Príncipe e dos caprichos de Norris. Loki tem estado na lista telefônica de Norris por quase uma década, e ele nunca teve certeza se sua longevidade nas graças do mestre espião era um indicador de sua competência ou de sua dispensabilidade.
Havia três deles esta noite: o próprio; Baines, o imenso camarada louro de Iowa que chamávamos de “Terra”, por que era grande como uma montanha e imóvel uma vez que decidisse não sair do lugar; e Marek Kaminski, um companheiro Mekhet com enorme erudição e um ego similar. Loki deixaria suas presas de molho por uma semana para saber o que Norris tinha com Marek. Loki não conseguia imaginar o garoto de ouro da Ordo Dracul bancando o Cão para um Príncipe Invictus e se misturando com a gentalha como Loki e Terra, a não ser que fosse castigo por algo.
“Pensei que você não pudesse morrer pelo vírus Muskegon,” disse Loki. “É o que eles vivem dizendo nos jornais, de qualquer forma. Dizem que não é nada sério, que a maioria das pessoas que pega ele nem mesmo sabem que estão doentes.”
“Bem, você não pode,” Terra disse afavelmente. “Você já está morto.” O Daeva gargalhou de sua própria piada, dando tapas em sua enorme coxa, fazendo com que as correntes de ouro e prata ao redor de seu pescoço tintilassem.
Loki riu também – não custava nada alegrar o cara grande, que não era exatamente a faca mais afiada na gaveta, mas que era muito bom em te cobrir em uma luta. E além disso, o frivolidade fazia com que os já finos lábios de Norris se comprimissem ainda mais em sinal de desaprovação. Norris não tinha muito senso de humor.
O espião mestre, porém, tinha a habilidade de esfriar até mesmo a gargalha de Terra em um silêncio oprimido com pouco mais do que um olhar gélido. “Se já estiver terminado com a demonstração de infantilidade, devo me esforçar para explicar – para que até mesmo suas mentes possam compreender a grave natureza do problema que estamos encarando atualmente.”
Norris pôs três envelopes pardos na mesa de conferência na frente deles. “Como verão pela informação fornecida, estes mortais não morreram do chamado vírus Muskegon – pelo menos não em sua mais prevalente forma comum.”
Loki, sendo o mais próximo, empurrou um envelope através da mesa para Marek, e um para Terra, e abriu o seu. Seis fotografias, seis dossiês pessoais, incluindo relatórios médicos e legistas. “Um novo vírus?” Isso não estava nos jornais.
“O que vocês tem em sua frente é o relatório não editado do laboratório,” disse Norris. “Naturalmente, os registros no hospital foram apropriadamente purgados de qualquer informação que fosse contraditória ao diagnóstico público oficial.”
Loki avançou para os relatórios do laboratório hospitalar, que estavam em termos médicos, e passou levemente sobre as informações pessoais. Jovens, adolescentes ou vinte e poucos anos, mas saudáveis. Estudantes ou jovens trabalhadores. Quatro garotas, dois caras. Três de North Shore, o que não eram boas notícias. Um da Universidade de Chicago. Um de Cicero – hmm. E o último... “Este último cara, ele nem é mesmo de Chicago. Ele é de Gary.”
“Uma observação astuta, Sr. Fischer,” Norris disse calmamente.
“O que é em-encefa – alguma coisa? O que é isso que está escrito aqui?” A cabeça dourada de Terra era torturada pela terminologia médica. “Sob causa da morte.”
“Encefalite,” Marek disse, “é uma inflamação no cérebro. Meningite é uma inflamação – um inchaço, se preferir – na membrana ao redor do cérebro e coluna espinhal. E antes mesmo de você tentar se esforçar mais, meningoencefalite é uma combinação das duas, e pode resultar em febre alta, convulsões, coma, paralisia – e, se você for uma pessoa sortuda, morte. Ou dano cerebral permanente. Felizmente, não são coisas que você tenha com que se preocupar.”
“Sei, sei,” Loki murmurou. Maldito CDF, se mostrando com seus discursos de araque. Loki folheou através dos nomes e fotografias. John Nathan Duncan. Jillian Sheridan. Kimberly Jean McLaren. Porra, ela era linda. Jovem, também, só dezesseis. Muito mal... Algo estalou em sua mente, e ele analisou as informações pessoais de novo. Sim... sim, é possível... e sim. Um pouco novos, mas – possível, se freqüentavam os tipos certos de festas, ou pareciam velhos o suficiente para mentiram para os seguranças de casas noturnas. Ele via dezenas de mortais assim toda noite; assim como qualquer Membro que caçasse a cena dos clubes noturnos. Presa.
“Eles morreram em sequência.” Marek claramente havia pegue os mesmo detalhes. “Três dias, talvez quatro no máximo, de diferença. E morreram três dias após os primeiro sintomas da doença. Jesus. Três dias?”
“É um parasita,” Loki disse alto, em parte para suavizar o olhar de concentração quase dolorido no rosto de Terra, e em parte para fazer com que Marek calasse a boca. “Não é o mesmo vírus. Você acha que tem algum Membro por aí espalhando essa porcaria?”
“A evidência parece indicar um vetor anormalmente seletivo,” Norris respondeu calmamente. “A maioria dos mortais afetados pelo tal vírus Muskegon eram idosos, ou já com a saúde debilitada. Estes eram jovens e saudáveis. Eles sucumbiram, conforme Sr. Kaminski apontou, extremamente rápido, e quatro deles foram hospitalizados na hora e passaram por tratamento. Suas mortes formam um padrão regular, quase previsível, que continuou pelo período das duas semanas que se passaram. Não podemos afirmar a que vulnerabilidade deles não seja uma simples coincidência, ou represente uma nova forma de um organismo viral evoluindo naturalmente, ou que seja o resultado de algum vetor sobrenatural. Mas não podemos excluir ainda. É aí, naturalmente, que vocês entram.”
Naturalmente. Era isso que os Cães faziam, encontravam coisas – embora Loki não fosse tão ingênuo a ponto de assumir que os três eram os únicos que Norris ou Maxwell tinham posto no encalço. Alguém claramente copilou os dossiês, e Loki não estava nem mesmo apostando que receberam os arquivos completos, também. Norris era da escola do ‘o que você precisa saber’, e ele era aquele que decidia o que você precisava saber.
“Pode ser um nômade, de passagem,” Marek divagou, observando os arquivos. “Embora se for, ele estava caçando furtivamente, e escolhendo a classe alta.”
“Verdade,” Norris concordou. “Tenho certeza de que vocês podem ver o quão delicada é a situação. Uma coisa são as fatalidades do vírus serem relativamente incomuns e afetarem somente os velhos e enfermos. Mas o que parece ser mais uma séria epidemia pode fazer com que os mortais descubram o que mais as vítimas têm em comum – e pode ter conseqüências desastrosas para esta cidade.”
“Se descobrirmos que é uma parasita fazendo isso tudo,” Terra disse, “o que você quer que a gente faça com o filho da puta?”
“Se um Membro for o vetor, é claro, o Príncipe ira exigir evidências incontestáveis de sua culpa - o que devo apontar, Mr. Baines, não pode ser obtida através de cinzas. Seria muito lamentável e inconveniente se o Príncipe tiver que lidar com esta questão publicamente em um Elísio. Portanto, temos total confiança de que procederão com a mais alta discrição.”
Por ‘mais alta descrição’, Norris quer realmente dizer ‘segredo total’. O que não tornaria o serviço deles mais fácil. “Tenho uma pergunta,” disse Loki. “O que, exatamente, é uma evidência incontestável? Este novo vírus aparece em exames de sangue ou o que? Digo, para um de nós, não eles.”
“Obviamente, se soubéssemos a resposta para isto, Sr. Fischer, não precisaríamos de seus avançados poderes de observação,” Norris respondeu com calma. “Quanto a natureza da evidência – bem. Deixaremos isto à sua perspicácia. A prova definitiva, é claro, seria a cessação de relatórios como estes que possuem em mãos. A morte é muitas coisas, cavaleiros: ponto pacífico, invasiva, inevitável – algumas vezes até mesmo trágica. Mas quando ela também é misteriosa e cria um padrão que pode ser seguido, ela também pode levar a publicidade infeliz. Devo acreditar que fui claro o bastante?”
Continua...

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