segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Um Assassinato de Corvos - Parte 6/1

    A Skullery não era a maior casa noturna na cidade – longe disso. Crobar tinha os maiores públicos, especialmente nos fins de semana, e Metro apostava em nomes famosos para rechear seus palcos. Mas tamanho não era tudo – estilo contava também, e Moyra tinha um sentido de estilo que um Daeva teria inveja. Ela também tinha uma noção exata de como agradar o público alvo, e mantê-los voltando – que beneficiava seu lucro final e aqueles Membros que ela contava como clientes e tinham permissão de se alimentarem em sua casa noturna similar a uma cripta gótica pseudo medieval. Loki se considerava sortudo por ser contado entre estes poucos felizardos.
    Hoje à noite, a Skullery estava abarrotada, com uma fila de gente de preto esperando do lado de fora da enganadora fachada mundana de tijolos lembrando um galpão. O segurança na porta o reconheceu e acenou para que ele passasse direto, causando o aborrecimento petulante dos mais próximos da porta. Loki sorriu um sorriso escancarado e os mandou um beijo, e então deslizou para dentro.
    Ele podia sentir a pulsante batida do contrabaixo e percussão através das solas de suas botas, reverberando no concreto e no aço dos degraus, nos blocos de pedra falsa na parede. Uma banda ao vivo – soava como Icarus Falling. Sim, era. Damien sempre atraía um bom público. Moyra estaria de bom humor, e se alimentar seria mais fácil.
    A pista de dança estava lotada com pessoas vestidas de preto, movendo-se ao ritmo do pulsar eletrônico da música. No palco, Damien executava um riff, dedos deslizando pelo braço da guitarra, evocando um uivo dolorido das cordas, que foi ecoado pelo sintetizador de Rina, reverberando e evaporado no silêncio vazio. Os integrantes da banda ficaram paralisados. As luzes se apagaram por um segundo, e então a batida voltou, as luzes voltaram, e guitarra e sintetizador apanharam o ritmo tribal de novo.
    Loki deu uma volta ao redor do perímetro erguido do clube, entre as mesas postas entre as massivas colunas do corredor e as alcovas com candelabros por entre as paredes externas. Algumas das alcovas tinham ossos e crânios nas paredes, algumas possuíam criptas com frente de vidro onde figuras esqueléticas vestidas em farrapos velhos podiam ser vistas descansando em seu interior. Gárgolas bisbilhoteiros e crânios de várias criaturas, humanas e inumanas foram esculpidos nos cantos e arcos da passagem. Os pilares iam até dois andares para cima e suportavam góticos arcos nas alturas.
    As escadas para a bancada superior estavam bloqueadas com uma corrente e uma pequena placa em caligrafia medieval: SOMENTE MEMBROS. O segurança abriu a corrente para ele e deu um passo para o lado. Loki fez um gesto de agradecimento e subiu as escadas.
    Loki caminhou pelo comprimento da bancada sobre a pista de dança até os fundos do clube. Moyra desceu as escadas na extremidade para encontrá-lo, a longa e marcante bainha de seu vestido vinha serpenteando por trás dela, quase invisível contra o preto do carpete.
    Damien uma vez tinha falado que metade do refúgio de Moyra era cheia de fantasias, e Loki podia acreditar nisso facilmente. Moyra afirmara que se cansara de vestir as mesmas coisas velhas – na verdade, Loki não se lembra de vê-la vestindo a mesma coisa duas vezes, ou pelo menos, não duas vezes no mesmo ano. Hoje a noite ela estava usando um vestido longo preto, frente única sem amarras, luvas de ópera de renda, e um casaco de penas vermelhas; seu cabelo era loiro e estava em um coque com um chapéu preto e um pequenino véu que balançava ante seus olhos. Muito chic, muito clássico – até mesmo seu batom era um vermelho de 1940.
    “Ah, boa noite,” ela disse, e graciosamente estendeu a mão para ele. “Era para você beijá-la,” ela adicionou quando ele falhou em pegar a dica.
    “Eu sabia disso”, Loki disse, e o fez, com seu melhor ar continental.
    “Assim está melhor,” ela disse, e levemente acariciou a bochecha dele com uma mão coberta de luva. “Temos convidados esta noite, a propósito. Tente não ser rude.”
    “É mesmo? Quem?”
    Moyra não respondeu. Ao invés disso, ela se virou para a porta aberta atrás dela em direção ao cômodo fracamente iluminado. Loki a seguiu. Aqui, escondido atrás dos arcos de pedra, se encontravam pesadas cortinas de veludo vermelho, e estrategicamente posicionadas para abafarem o som, era o cômodo mais exclusivo mais ostensivamente mobiliado, uma sala particular onde Moyra e outros Membros que ela favorecia poderiam saciar a si e aos seus convidados mortais.
    
Continua...

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